sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Cela do tempo

Num quarto frio, gélido como o abandono e escuro como a mais enevoada das noites, estou preso, perdido, confuso. As paredes sujas com terra e sangue, com o suor da luta de tantos outros abandonados aqui. A minha frente, a pequena janela quadrada não permite a entrada de nenhuma luz, nenhum deslumbre do que está além deste buraco: suas pesadas barras e as tábuas fixadas do lado de fora impedem que haja até mesmo a esperança de me libertar.

Além da esperança fugidia, o desespero é também alimentado pela dor criada por observar o que está atrás de mim: a pesada porta de chumbo, como que feita especialmente para cada prisioneiro, com fotografias, cartas e lembranças estraçalhadas por arranhões e pancadas. A pequena fresta por baixo desta porta deixa entrar uma iluminação pífia, suficiente para que seja possível observar a podridão da cela. Nenhum dos prisioneiros se sente melhor ao lembrar do que foi abandonado além da porta de chumbo...

A respiração pesada contribui para o sofrimento, não pelo pesar no peito e nem pelas costelas quebradas, mas pelo fardo que representa. Simplesmente não há como deixar de respirar, deixar de sentir toda escuridão se apossar de seu corpo, de embotar sua mente. Não existe o não-ser, não-existir. Aqui, qualquer tipo de vontade abandona o prisioneiro, até mesmo o fim em si é uma opção difícil de realizar.

Olho em volta e percebo todas as marcas da revolta e da violência, os arranhões e manchas de sangue na parede, os rasgos no colchão deteriorado e com um forte odor de urina, o sanitário destruído, a sanidade destruída, a vida em si trancafiada e dilacerada aos poucos nesta cela imunda.

Fim da esperança, privação da vida, escuridão. Fim do meu tempo?
Não, creio que apenas parei no tempo, preso na própria escuridão...

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